Está no ar, no site da Prazeres da Mesa, minha coluna para a edição do mês passado. Que diz assim:
Sombras do passado
Quando a memória afetiva fala mais alto e a gente não consegue abandonar uma comida, mesmo ruim, por puro apego emocional
Navegando no Facebook – aquela comunidade virtual em que a galera finge ter 1 milhão de amigos –, deparei com a engraçada mensagem da colunista do jornal Folha de S.Paulo, Barbara Gancia: “Acabo de vir do Mercadão, onde comi um pastel de bacalhau do tamanho de uma colcha queen size. Alguém tem um Zylium para me emprestar? Barf!”
A mensagem é ambígua: ela comeu tudo isso porque adora o famoso pastel do Mercado Central de São Paulo? Mas, se é tão bom, por que a urgência no remédio? Se é tão ruim, por que comeu todo?
Os comentários das pessoas que por ali palpitaram foram, no geral, vibrantes. “Que saudade desse pastel...”. “Próxima vez me avisa que vou com você.” “Delíííícia!!!”. Estraga-prazeres, mesmo, só eu, que tasquei: “Horror. Seco, salgado, recheio demais para massa de menos... Um embuste. Você precisa se cuidar melhor!”.
Cito esse episódio porque recentemente defrontei com coisa semelhante: apego por uma comida ruim, mas que fala às tradições, à memória. Foi quando escrevi, para a Folha, sobre um restaurante paulistano, o Caverna Bugre. É uma casa digna de nota, no mínimo, porque completa 60 anos, uma proeza. E acaba de passar por reforma, então está tinindo. E esse restaurante faz parte de minha memória afetiva. Ele fica na Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, local onde morei na minha juventude estudantil. Normalmente, nossas refeições aconteciam no restaurante universitário mesmo. Mas, quando sobrava um dinheirinho, íamos aos bandos a restaurantes em que podíamos ter o luxo de ser servidos à la carte. O Caverna Bugre era um deles.
Agora, ao visitá-lo após a reforma, além de atacar os pratos alemães que são sua especialidade, provei o orgulho da casa: algo chamado filé alpino. Era a glória dos estudantes da minha época, e continua popular. É pedido por mais da metade dos clientes, e ganhou o Prêmio Paladar (do jornal O Estado de S. Paulo), dois anos atrás.
No entanto, eu já sabia o que me esperava. O filé continua igual; mas, da minha adolescência para cá, meu paladar mudou, creio que para melhor. E assim o descrevi na Folha: “Um sincretismo gastronômico composto de filé-mignon e uma cobertura de copa, catupiry e provolone, gratinado e servido com arroz e um liquefeito molho inglês. Uma mistura pesada (talvez não para o adolescente faminto...) em que nada funciona (a não ser a bela crosta dourada do gratinado)”.
Mas o fato é que a memória das pessoas talvez continue falando mais alto. Mal o jornal chegou às bancas, surgiu uma mensagem de alguém no Twitter: “Ridículo o que o Josimar Melo falou do Caverna Bugre; hoje em dia, qualquer um se mete a crítico gastronômico!”.
Deu neste domingo na Folha -- caderno Ilustrada -- matéria sobre a lei (de 2006) que proíbe apresentações de artistas em comícios. A matéria tem sido discutida por artistas, com argumentos prós e contras. A Ilustrada me pediu um depoimento, que foi publicado junto com a matéria.
Sempre detestei a politização da arte, contra os cânones stalinistas da obra de arte "engajada" e proselitista. Mas o artista, como cidadão, se engaja onde quiser, e muitos o fizeram corajosamente na ditadura militar.
Na USP dos anos 70, organizei shows que serviam como forma de reunir os estudantes (numa época em que até assembleias eram proibidas) e, antes de começar a música, dava-lhes recados políticos. Como fiz em alguns memoráveis, de Milton Nascimento e de Astor Piazzolla, feitos ao ar livre no campus (a produção, profissional, foi de Roberto de Oliveira).
Mais tarde, fizemos shows pela anistia no Anhembi, no Palmeiras, no Tuca, onde tropeçávamos nos camarins com Chico Buarque, Fagner, Baby Consuelo.
Na década de 80, músicos iam aos nossos comícios do PT (e de outros partidos). Mas não era para ganhar dinheiro: participavam como uma forma de engajamento.
Hoje grupos como a Força Sindical, na tradição pelega, contratam músicos e leiloam carros em comícios, reduzindo trabalhadores a tietes.
Partidos endinheirados fazem o mesmo e, para os músicos, aquilo vira só um palco para ganhar uma grana, e não para expressar preferências políticas. Quem sabe se, no lugar de se proibir os artistas no palanque, apenas se proibisse que ganhassem cachês? Assim eles iriam somente àqueles que exprimissem seus ideais de cidadão.
Uma surpresa diferente em Minas. No lugar da linguiça, o toro de atum, a preço de pão de queijo... Claro, não é bem assim. Mas no restaurante Rokkon -- cujo balcão de sushis está sob o comando do chef consultor Wilson Kinoshita (da família do Kinoshita de São Paulo, onde oficia o chef Murakami) -- há um folheto sobre as mesas, que entre outras coisas anuncia: "toro de atum - R$ 43,00".
Pra quem vive em São Paulo, é de se imaginar que este preço corresponda a uma ou duas fatias da iguaria, talvez uma dupla de sushi. Mas, surpresa: o que surge à mesa é um prato com dez fatias (grossas, parrudas) de toro.
O chef explica, mais tarde, que em BH o público não conhece este corte; e que nem mesmo seu peixeiro -- que traz o atum do Rio de Janeiro -- tem ideia do que seja, ou seu valor. Por isso ele é barato de comprar no peixeiro; e por não ser conhecido, impossível de vender a preços muito altos para o público.
Enquanto a situação não muda, se você está em BH ou vai passar por aqui, aproveite.
Dessas coisas que só acontecem em Minas mesmo. Vim a Belo Horizonte para participar, amanhã, do jantar que o francês Patrick Gauthier (2 estrelas Michelin em seu restaurante La Madeleine, em Sens) realiza no restautante O Dádiva. Pois passando o dia trancado no hotel, escrevendo, quando bateu a fome (e a falta de tempo), já umas três da tarde, não deu vontade de comer um club sandwich no bom hotel onde estou; mas de me perder, mesmo que correndo, nalgum dos pecados das beatas Minas Gerais.
E então, aqui é assim: é só sair na rua. Claro, tem coisa ruim em qualquer lugar do mundo, então sempre é preciso algum feeling. Mas não demorou muito: a menos de 5 minutos de caminhada, achei um boteco, mais feio e desarrumado impossível. E pedi: uma dose de cachaça de Salinas (só tinham uma, e não das melhores); uma cerveja; e um sanduíche de linguiça com queijo Minas.
Foi tudo muito bom. Tanto que, morrendo de inveja de outro cliente, tive que pedir também um sanduíche de graúdo pão de queijo com a mesma linguiça dentro.
A glória. A GLÓRIA.
Mas... Vi ali na minha frente um mineiro, pele escura, semblante tranquilo das Alterosas, traje padrão de zelador ou motorista, meia-idade, fazendo um lanchinho. Aquele mineiro da gema, que tinha tudo para ser meu ídolo em termos de gastronomia popular, estava com olhos fixos na minúscula televisão do boteco, e bebendo... uma lata de energético... e comendo... um saquinho de Ruffles’s.
O horror. O HORROR.
PS 1 - Mas vi muita gente, ali mesmo, comendo pão de queijo com cafezinho de coador em copo de vidro. Como desde sempre. A batalha ainda não está perdida!
PS 2 – A mocinha avisava: “gente, o café não está açucarado”. Cada um coloca o açúcar que quiser, se quiser. Viram que moderno o boteco que eu farejei? Chama-se Cecilia Lanches. Não tem número nem placa. Mas fica na rua São Paulo, já desaguando na avenida Contorno, no bairro de Lourdes. Toalha de plástico, luzes de néon, fumaça da cozinha, um horror. E a glória.
PS 3 – E a hora da “dolorosa”? Uma cachaça, uma cerveja grande, dois sanduíches de calabresa: R$ 8,50. Em São Paulo não pagaria nem a pinga.
Não entendo. Não param de chegar comunicados enfatizando as qualidades da "ração humana". Ração humana???
Quem será que inventou esta denominação infeliz? (Provavelmente, tradução de alguma onda americana.)
Sou meio antiquado, talvez. Sou do tempo em que, a não ser para pessoas doentes com deficiência de alguma vitamina, acreditava-se que tudo aquilo de que o corpo necessita está nos alimentos. E sendo assim, no lugar de fazer uma ração para os bípedes se alimentarem, bastaria comer coisas variadas, saudáveis, gostosas.
Já desconfio de ração para animal -- muitas os fazem ingerir produtos (por exemplo, farinha de ossos de outros animais) que normalmente não estariam na sua dieta, mas compõem a ração. Só de ouvir, ou ler, que os homens também precisam de ração (e não de boa comida), isso me dá arrepios. É o que sinto lendo notícias assim:
* A Vitalab lança ração humana 100% natural.
* Restaurante Natural & Tasty inclui ração humana em seu bufê.
* Colágeno já pode ser encontrado nas prateleiras, em compostos de ração humana.
* Sanavita lança sua ração humana sem glúten.
E por aí vai.
Acho que deve ser algo parecido com o que antigamente chamavam de cereal matinal, ou coisa assim. Virou ração para gente.
O chef René Redzepi (dir.) e turma rebem o título de melhor restaurante do mundo em Londres
Quando o chef dinamarquês René Redzepi recebeu para o restaurante Noma, dia 26, em Londres, o número um no prêmio S.Pellegrino World's 50 Best Restaurants, ecoaram perguntas como: "Ele é mesmo o melhor?". Mesma questão colocada no Brasil: o D.O.M., do chef Alex Atala, sagrado 18, é realmente melhor que as feras europeias que ficaram atrás?
Dois dias antes, eu estive no Noma, em Copenhague. Sua ousadia em tratar com leveza e surpresa os ingredientes nórdicos (sim, existem) valem a atenção mundial que está angariando. Assim como são brilhantes os segundo e terceiro lugares (El Bulli, onde atestei em novembro a incrível vitalidade do chef Ferran Adrià, e o londrino Fat Duck, do provocativo Heston Blumenthal).
Mas serão necessariamente os melhores do mundo? E nessa ordem? Dezenas de jornais -e milhares de blogs- puseram-se a comentar os resultados deste ano e a fazer suas próprias classificações. Da mesma forma que todos comparam -e contestam e cotejam- os resultados do guia "Michelin", ou dos rankings das revistas do Brasil e do mundo.
Eu mesmo, que pertenço ao comitê organizador do prêmio londrino (e também voto), posso afirmar que minha lista pessoal não seria exatamente essa.
Ainda assim, a lista tem grande importância, menos por fixar taxativamente quem é o melhor e mais por mostrar as tendências que se descortinam. Por mostrar para onde está olhando a elite da gastronomia do mundo (da qual é composta o júri de 806 votantes, distribuído entre chefs, donos de restaurante e críticos).
E, nesse aspecto, por mais que surpreenda a assunção de um restaurante de Copenhague, a mudança não foi tão radical: os cinco primeiros continuam representando uma cozinha de vanguarda (René, aliás, trabalhou no El Bulli, ex-número 1). Assim como o D.O.M., que subiu de 24º para 18º.
O que aparece não é, obviamente, o império da cozinha nórdica, mas, sim, o fato de o Noma, sem abrir mão da inventividade e ousadia técnica, se debruçar radicalmente sobre os ingredientes locais da mesma forma que o D.O.M. encanta pela dedicação aos produtos brasileiros.
Essa liga entre arte, técnica moderna e terroir parece ser a pegada que o mundo da gastronomia representado em Londres sentiu.
(Publicado hoje na Folha de S.Paulo)
Entrevista de René Redzepi (em inglês) logo após receber o prêmio
Hoje aconteceu em Londres a cerimônia de entrega dos prêmios aos 50 Melhores Restaurantes do Mundo (S.Pellegrino World's 50 Best), na versão 2010.
Não foi uma mudança radical, mas alguma mudança houve – e com uma esperada repercussão. Depois de quatro anos seguidos liderando o ranking organizado pela revista londrina Restaurant, o restaurante espanhol El Bulli cai para segundo lugar na lista, substituído pelo dinamarquês Noma (que no ano passado ficara em terceiro). E em terceiro lugar fica o inglês Fat Duck (que vinha sendo o segundo). Enquanto isso o Brasil continua a figurar na lista, desta vez subindo seis posições: o paulistano D.O.M., do chef Alex Atala, passou de 24º para 18º luigar.
A premiação foi anunciada no suntuoso Guildhall, palco de grandes recepções da realeza e da elite londrina. A ascensão do jovem chef René Redzepi, 33, do Noma, vinha sendo acompanhada com interesse pelo mundo da gastronomia, tanto por sua inventividade quanto por sua capacidade de explorar ingredientes inesperados de sua localidade (Copenhagen) e dos países nórdicos, e revelar novas possibilidades de sabor e técnicas.
De toda forma, a dança das cadeiras não é radical –os três melhores continuam os mesmos; e o chef vencedor trabalhou com Adrià, de quem herdou técnicas e ousadia. Quanto ao Brasil, a subida na classificação surpreendeu o próprio Atala, que no entanto arrisca uma explicação para o fato: “muitos chefs e jornalistas têm vindo a eventos no Brasil, e passam a conhecer nosso trabalho; além disso, eu tenho viajado, divulgado nossa cozinha, enviado ingredientes para outros países, e esse trabalho de formiguinha ajuda a divulgar também”.
Aplaudido de pé, Adrià foi homenageado como o chef da década.
Veja a lista dos 50 mais votados:
1 Noma - Denmark - noma.dk
2 El Bulli - Spain - elbulli.com
3 The Fat Duck - UK - thefatduck.co.uk
4 El Celler de Can Roca - Spain - cellercanroca.com
Uma palhinha mínima da aula de Alex Atala no Peixe em Lisboa, evento que acaba neste domingo e que contou com forte presença de chefs do Brasil (além de Atala, também Bel Coelho, Mara Salles e Tsuyoshi Murakami, de São Paulo; Claude Troisgros, do Rio; e Beto Pimentel, de Salvador.
Ao voltar, depois de breve saída, para o auditório onde Atala dava aula, registrei o momento onde ele comenta sua técnica de preparar a lula (chacoalhando-a vigorosamente com água, sal e gelo). Claude Troisgros, que deu aula dias antes, faz careta no final. (O de gravata é o curador do evento, Duarte Calvào.)
De vez em quando vou dando uns pitacos via twitter (@JosimarM).
Para os mais de cem leitores que comentaram meu post anterior ("A frescura dos brasileiros diante da comida") -- e especialmente para os que gostaram (dezenas odiaram...) --, recomendo um post antigo de Neide Rigo, do qual havia esquecido, mas onde ela fala (com muito mais espaço e propriedade) sobre temas correlatos.
O post se chama "Comida visceral e extremidades". Naquele artigo, ela já dava substância à frase que coloquei no meu post, dizendo que miúdos tendem a ser ultraproteicos e baratos, algo ideal para um país pobre como o nosso.
Matéria de Luiza Fecarotta na Folha de hoje -- "Guia dos Curiosos" -- mostra comidas estranhas ou curiosas, de queijo de leite materno a café comido e defecado por um tipo de gambá. Sobre a reação que os brasileiros costumam ter a comidas diferentes, escrevi o seguinte comentário, na matéria:
Mais estranho é o fato de estranhá-los
Mais bizarro do que determinadas comidas bizarras é o hábito brasileiro (não só das classes mais abastadas, do povo também) de rejeitar comidas que saiam de um restrito repertório do trivial cotidiano.
Por que só arroz, feijão, macarrão e bife? Por que não coentro (fora da Bahia), jambu (fora da Amazônia), maxixe (fora do Nordeste), ora-pro-nobis (fora de Minas)? E por que não miúdos e partes de animais que não sejam só o filé mignon (ou algum tipo de bife)? E por que não outros animais além dos poucos de sempre?
Bucho, testículos, miolo; e também escorpiões, cobras e lagartos alimentam povos considerados altamente civilizados e ricos. Os franceses, com seus sapos e lesmas, talvez tenham-se a eles habituado em função das guerras (inclusive internas -durante a Comuna de Paris, não sobrou pata sobre pata no zoológico da cidade).
No caso dos chineses, foi a escassez de recursos e o excesso de população que fizeram nada ser rejeitado, resultando numa culinária variada e sofisticada.
O Brasil não sofreu a pressão das guerras, mas sofre o da escassez, da pobreza. Quando um nordestino come um calango, soa como desespero; mas não deveria ser tão normal quanto um italiano que caça um tordo?
Nunca comi calango, mas isso é um mau sinal. Significa que não estão à venda, que ninguém os prepara como o que são: uma fonte de proteína a mais que a natureza oferece, e que possivelmente é gostosa. Certamente, poderia se tornar uma iguaria nas mãos de cozinheiros aplicados.
Miúdos tendem a ser ultraproteicos e baratos: ideal para um país pobre. Mas parece que nosso complexo de Casa Grande extirpou até o gosto pela aventura do gosto. Uma perda.
Comida e quadrinhos: os franceses não deixam escapar nada
Os franceses não deixam escapar nada, quando o assunto é comida. (E quando o assunto é acadêmico, também.) Eis que começou hoje, em Angoulême, a exposição "Le Goût des Bulles: Alimentation, Bande Dessinée et Cultures Enfantines" (queria estar lá: curto quadrinhos). Ela acontece no centro chamado Cidade Internacional da História em Quadrinhos e da Imagem, e vai até 30 de setembro.
Mas como aos franceses nunca é suficiente apenas ver, é preciso sempre discutir muito, ali vai acontecer também um seminário -- "Alimentation, Cultures Enfantines et Éducation" -- mas este dura só dois dias.
Em tempo: "bulles" são os balões onde aparecem os diálogos na "bande dessinée" (quadrinhos).
O jantar com Petrini, a idealização dos camponeses e o aroma do vinho
A última ceia do italiano Carlo Petrini (fundador e presidente do Slow Food) no Brasil, depois de uma semana atribulada, foi longa mas tranquila. Éramos apenas quatro, num jantar de quatro horas no Maní. Deu para conversar calmamente, e pude observar mais de perto essa figura carismática, que encantou todas as platéias para as quais falou desde que chegou a Brasília, no sábado 20 de março, para o encontro Terra Madre Brasil 2, em Brasília (para saber mais sobre o evento, veja matéria aqui no Basilico).
O ex-militante comunista, ainda hoje jornalista gastronômico, hoje corre o mundo militando pela causa dos alimentos "bons, limpos e justos" -- bons de sabor, limpos no meio ambiente e justos socialmente --, que já atraiu ao Slow Food mais de cem mil afiliados.
Em suas falas a que assisti aqui no Brasil esses dias -- duas em Brasília, duas em São Paulo -- ele esparrama um charme que se apoia na forma como abraça seus ideais. Cara de esquerda na juventude, envelheceu "sem perder a ternura" nem as convicções básicas -- que não obstante, adaptou para os novos tempos, encantando a juventude e os idealistas mais velhos que vêm seus antigos companheiros pulando aos saltos para o outro lado da barricada...
(Foto Carolina Amorim / Divulgação)
Carlo Petrini fala durante jantar no Terra Madre Brasil, em Brasília
Quem quer ser um camponês?
O seu discurso sempre fala da simplicidade, do modo de vida e de comer dos nossos avós, de valores humanos perdidos. É bonito e faz sentido. Mas pode ser perigoso diante do crescente endeusamento da burrice e da ignorância (como mostrei no post sobre os chatos), como se (neste caso do Slow Food) a ingenuidade do camponês pobre, do caboclo isolado, fossem um ideal. Não são. Os conhecimentos que esses produtores têm da terra, assim como seus produtos, são um patrimônio valiosíssimo; mas sua falta de cultura geral, seu despreparo imposto pela alienação a que são submetidos, sua impossibilidade de se apropriar de valores (da cultura, da gastronomia etc.) que parte da humanidade usufrui, não deveriam causar inveja a ninguém.
Na véspera do nosso jantar, no encontro Entre Estantes e Panelas, Petrini fizera o elogio da comidinha da vovó (citava a ribollita toscana), feita de ingredientes simples, como a única que é histórica, que ficará para sempre, ao contrário da nouvelle cuisine francesa... Derramou ali o combustível que os reacionários da culinária sempre esperam, quando querem criticar as inovações. Completou depois sua peroração perigosamente conservadora ridicularizando um suposto amigo que ao beber um vinho de Bordeaux, afirmou sentir ali cheiro de cavalo suado.
Entre a ribollita e a feijoada esferificada
Por sorte, na sua última ceia, não ficou dúvida de que nem ele mesmo acha que as coisas são assim. No Maní, ele se deliciou com cada prato do longo (mas leve como sempre) menu-degustação preparado pela chef Helena Rizzo. "Ela não errou um!", exclamava ele, raspando cada prato. E o que havia no prato? A ribollita da vovó? Não, Petrini urrou de prazer comendo... esferificação de feijoada, desconstrução de salada Waldorf, espuma de pupunha, ovo a baixa temperatura -- todos de paladar brasileiro, mas diretamente influenciados pela vanguarda espanhola de Adrià. Ah, e quando mudávamos de vinho, Petrini queria saber qual era a uva, onde era feito... Um gourmet de verdade.
Naquele dia ele tinha almoçado churrasco e feijoada num boteco. À noite, atacou esferas e espumas. E teve prazer nas duas refeições. Pois não há contradição entre apreciar nenhum tipo de boa cozinha -- seja a trivial, seja a clássica, seja a de vanguarda.
Petrini exagerou na paródia (disse ele)
Em dado momento do longo bate-papo que entrou pela noite, fiz ver a Petrini os perigos que ele deflagrava ao fazer, como na noite anterior, ataques à sofisticação do paladar. Será que ele não identificava perfumes do vinho, não os chamava pelos nomes que eles têm na natureza (inclusive o cavalo suado, o piche, a violeta, o que seja)? E com isso não utilizava uma linguagem comum com seus companheiros de gastronomia?
(Parênteses: em outro momento do jantar, Petrini contou -- como lhe haviam indagado na véspera, mas ele não respondera -- de uma desavença que teve no Partido Comunista, nos anos 60: militante, ele participara de uma reunião numa Casa del Popolo em Montalcino, ao final da qual foram servidos dois vinhos locais -- um Brunello e um Rosso -- que, segundo ele, eram intragáveis; de volta ao Piemonte, ele escreveu um relatório sobre a reunião onde dizia que, se na sua terra alguém se atrevesse a servir um vinho tão ruim numa reunião, seria escorraçado como um nazi-fascista. Os superiores acharam a comparação muito forte, o relatório provocou desdobramentos delicados... mas é outra história.)
O fato é que diante da minha observação de que ele fora infeliz ao atiçar a plateia contra os que apreciam o vinho, ele disse "não, não, de fato eu exagerei na paródia". Ufa, menos mal. Ressalvou, no entanto, que não gosta que tratem o vinho como algo complicado ou aristocrático. Claro. E ninguém gosta, a não ser os chatos.
Outra coisa (se é que a história é verdadeira) é que não me parece tão inapropriado comentar um aroma típico de um Bordeaux com uma pessoa como Petrini -- que é jornalista de gastronomia, que edita guias gastronômicos, que é um gourmet experiente, que come feijoada esferificada e adora, que se interessa pelos vinhos a ponto de deflagrar uma crise no Partido Comunista por causa deles... O amigo, parece, estaria compartilhando uma sensação com a pessoa certa. A menos que estivesse passando a final da Copa do Mundo entre Brasil e Itália na TV. Nesse caso, ele não estaria sendo aristocrático, apenas um chato padrão cumprindo seu papel.
Ouço às vezes pessoas se queixando de outras que seriam os “enochatos”. Acho ruim esta designação, porque ela em geral supõe que uma pessoa que aprecia intensamente vinhos, estuda os vinhos, procura identificar suas características e qualidades, seria um chato. Seria o mesmo que dizer que alguém que ama cinema, que procura saber tudo so-bre esta arte, que assiste a filmes atento a cada detalhe de ilumina-ção, ritmo, atuação, que recorda cenas e falas inteiras, seria um chato, um “cinechato”!
Absurdo. O que faz uma pessoa chata não é ser fanática por vinhos ou cinema. O que faz uma pessoa chata é que ela é... chata por natureza! Não é capaz de medir as palavras e as ações, ou de adequá-las ao ambiente, às pessoas, ao momento que tem à sua volta. Não é capaz de respeitar outros interesses, não é capaz de perceber, e respeitar, o outro.
Muita gente sente, sim, cheiro de estrebaria ou de piche ou de violeta ou de banana num vinho. Aromas produzidos por moléculas que, queiram ou não os céticos, estão ali, sim –existem fisicamente. Se uns sentem mais, outros menos, não é defeito nem de uns, nem de outros. Mas eles existem, talvez detectados erradamente às vezes, mas não sempre.
Como reconhecer o chato, com ou sem copo na mão
Será mesmo que alguém é chato por sentir sabores balsâmicos num vinho, ou travo de taninos? Absolutamente não. E se ele estiver entre enófilos, numa degustação, e trocar estas impressões com outras pessoas igualmente interessadas no assunto, será um chato inconveniente? Mais uma vez, lógico que não.
Mas ele será certamente um chato se:
- Quiser monopolizar a conversa à mesa, numa refeição de família em que muitos estão tomando refrigerante, outros estão tomando vinho sem compromisso, outros são alcoólatras tentando se reabilitar e querem evitar o assunto --, mas todos terão que ouvir por horas a descrição detalhada de cada gole dado pelo chato.
- Durante uma festa, em que há interesses e conversas variadas, obrigar todo mundo a meter o nariz na taça dele para confirmar como realmente tudo o que ele está dizendo é verdade.
- No meio do jogo, quando o Robinho está prestes a fazer um gol de letra em sua reestreia pelo Santos, postar-se diante da TV para anunciar, como se fosse a cura do câncer, que ele descobriu um novo aroma que só se desenvolveu no copo agora, meia hora depois de aberta a garrafa.
E por aí vai. Mas veja bem: supondo que este mesmo chato seja proibido de falar de vinho; você acha que ele deixaria de ser inconveniente? Duvido. Ele deve ter algum outro assunto que ache interessante, nem que sejam as novas e excitantes promoções no escritório em que trabalha. E você acha que ele vai deixar alguém almoçar em paz, beber em paz, assistir ao futebol em paz, sem contar detalhes de como aquela assistente enganou aquele chefe (na cama, certamente) para conseguir um cargo que nem merecia etc. etc.??
Vejo que frequentemente, ao se referir a um amante do vinho como enochato, muita gente está se referindo ao fato dele dominar certa área do conhecimento (os vinhos) mais do que as outras pessoas, e que isso provoca desconforto. Como resultado, incentiva-se uma generalização perigosa: a ideia de que o conhecimento, a expertise, o aprofundamento em um tema seriam coisas de chato.
Em outras palavras, dissemina-se a cultura da ignorância: as pessoas não devem conhecer muito. Basta achar um vinho gostoso, um filme divertido, e chega. Nada de pensar, analisar, discutir.
Vamos com calma. O elogio da ignorância sim é uma chatice. E perigosa.
Churrasco com Darín, vencedor do Oscar: agora tem "O Guia" na internet
Ao mesmo tempo em que está passando seus primeiros episódios em seis outros países da América Latina, no Brasil, em que a temporada já passou e reprisou inteira, meu programa "O Guia" começa a ser também exibido na internet, no site da Fox (que é sócia do canal onde o programa passa, o NatGeo).
Um dos episódios é o de Buenos Aires: ali, entre outras coisas, há uma conversa com o ator Ricardo Darín -- o mais premiado da Argentina, estrela do filme "O Segredo dos Seus Olhos", que acaba de ganhar o Oscar de filme estrangeiro. A conversa foi, claro, em torno da mesa, comendo um belo churrasco na maravilhosa parrilla El Pobre Luis. Darín reflete sobre o caráter dos argentinos (tema do episódio), e está impagável imitando cariocas falando na praia... Uma figura.
(Foto Renata Grynszpan)
Churrasco com Ricardo Darín, na gravação de "O Guia" em Buenos Aires
No episódio ainda converso com grandes chefs (como Francis Mallmann e Fernando Trocca); e troco uma ideia com um brasileiro que estava dando um show por lá -- Marcelo D2. Pena que e emissora eliminou a cena em que eu dava um presente a ele, um belo charuto; ao que ele respondeu: "o que é isso, tabaco?? Não fumo não... só se eu abrir no meio e rechear com manga-rosa do bom!"...
Já está no ar também o episódio da Bahia -- incluindo moqueca com dona Canô (mãe de Caetano Veloso) e com a cozinheira Dadá, charutos no Recôncavo e comida de santo, que eu lancei ao mar em oferenda a Iemanjá.