Basílico - Josimar Melo UOL Blog
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Para o sul e para o alto

Estou no momento no sul do país, a 800 m de altura (sobre o nível do mar). O evento chama-se Mesa de Cinema,  realizado uma vez por mês. Atualmente ele acontece em Gramado, na serra Gaúcha, no hotel Casa da Montanha --um hotel grande mas não enorme, agradável, construído em estilo suíço, com decoração alpina bem adequada aos 7 graus centígrados de mínima temperatura prevista para hoje.

O filme deste mês é o "Sideways - Entre Umas e Outras", de Alexander Payne, o "wine road movie" que fez boa carreira nos Estados Unidos, especialmente pela interpretação de Paul Giamatti na pele do atormentado Miles, que viaja com um amigo pela Califórnia experimentando os prazeres dos vinhos enquanto tenta esquecer as agruras da vida. O evento funciona assim: um coquetel de boas-vindas com petiscos inspirados no filme; projeção do filme (em 3 sessões, para que os hóspedes escolham o melhor momento de ver); debate sobre o filme (é aí que eu entro); e um jantar com cardápio inspirado no filme.

Coquetel e jantar estão, desta vez, a cargo do chef João Leme, talentoso comandante do restaurante Rôti, em São Paulo. Considerando que o filme não mostra muita comida, ele vai ter que usar a imaginação para compor seus cardápios. Este relato eu faço depois.



Escrito por Josimar às 10h02
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Oito ou 800

Dia curioso, a quinta-feira passada. Às 11 horas, encontro marcado na Enoteca Fasano com Antonio Soares Franco, presidente da vinícola portuguesa José Maria da Fonseca (a mesma do Periquita), para mostrar dois tipos de vinho da linha premium da empresa: dois Portos (um LBV 1999 e um Vintage 2000, feitos em parceria com Cristiano van Zeller); e cinco vinho Moscatel de Setúbal, sendo quatro da linha Alambre (de 10, 20, 30 e 40 anos), e um verdadeiramente raro: o Trilogia.

Os Moscatéis provados são todos vinhos densos, alcoólicos, plenos de corpo e fruta. O Alambre 30 anos me pareceu sensacional, equilibrado, o álcool totalmente domado. O LBV 99 tem com gosto estonteante de figo; o Vintage 2000 com muito boa fruta, ainda naquela fase inicial dos Vintage, quando ainda têm bastante fruta (logo depois eles se fecham, para reabrir –ainda melhores— somente uma ou várias décadas depois).

A estrela foi o Trilogia, uma raridade: foi feito com reservas, ainda existentes em tonéis, das três melhores safras de Moscatel de Setúbal produzidos pela casa no século passado –1900, 1934 e 1965. Muita finesse, pouco açúcar e grande doçura arredondada pelo tempo. Foram produzidas apenas 8 mil garrafas de ½ litro, e nunca mais será feito novamente. Ao Brasil vieram apenas 300 garrafas, ao preço de R$ 800,00 cada.


Antonio Soares Franco fala aos jornalistas

Foram momentos agradáveis, onde reencontrei Soares Franco (da sexta geração da família proprietária), e onde os vinhos foram acompanhados por frutas, chocolates e queijos, entre eles um cremoso Serra da Estrela. Mas tive que sair às 13 horas para um almoço longe dali, em Pinheiros: deixei a Enoteca Fasano em direção ao Feijão de Corda, para comer comida nordestina, no restaurante da rede aberto há pouco em Pinheiros.

No lugar do Trilogia de R$ 800,00, duas boas doses de cachaça catarinense Solar, tipo uns R$ 8,00 as duas, seguidas de uma garrafa de cerveja Serra Malte. No lugar do queijo da Serra da Estrela, manteiga-de-garrafa sobre mandioca cozida e torresminho. Em seguida, cabrito com maxixe, feijão-de-corda, arroz. No final, compota de caju. As entradas não emocionaram, o cabrito estava bom, e de toda forma, saí de lá apreciando estas coisas da vida, nossa capacidade de extrair prazer em pontas tão contrastantes da nossa experiência do cotidiano.


Nordeste à mesa: cabrito com maxixe do Feijão de Corda



Escrito por Josimar às 14h10
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Josimar Melo é jornalista,
crítico de gastronomia da
Folha de S.Paulo e agitador
cultural nessa área

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