Basílico - Josimar Melo UOL Blog
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Ainda no alto: Teresópolis, com altos vinhos


Garrafas do Château Mouton Rothschild degustadas

Depois da serra Gaúcha, veio a serra de Teresópolis. Estive lá esta semana (terça-feira) para participar de uma degustação promovida pela Universidade Estácio de Sá e pelo hotel Le Canton. Foi meio que uma operação casada para divulgar tanto os cursos de gastronomia e hotelaria da universidade, quanto o próprio hotel, que deixou de ser uma pequena pensão para virar um grande hotel, com extensa área, chalés espalhados, piscinas aquecidas, restaurante suíço e spa francês (o Caudalie, especializado em tratamentos estéticos com derivados de uvas viníferas).

Para beber? A degustação foi “apenas” uma vertical de Château Mouton Rothschild –safras 2002, 2001, 1999, 1998, 1995 e 1990, dirigida pelo sommelier Fernando Miranda.

Destaques:

• O 2002 era tão intenso, com aromas tão típicos (cereja, tabaco, torrefação, pimenta, bons taninos) que foi acusado de ser muito parkerizado, perdendo a alma do Mouton e se aproximando demais de vinhos do Novo Mundo. Mas eu não achei ruim.
• O 1999 foi o meu preferido; embora já feito na era de influência da dupla Parker / Rolland, dá um banho de elegância, com aromas finos e insinuantes (frutas vermelhas, especiarias, pimentão, redondo na boca, ótimo corpo). Show.
• O 1990 me preocupou: ano de nascimento de minha filha, tenho alguns em casa, comprados en primeur à época, e aguardando a festa de 18 anos. Achei que estava dando sinais de oxidação, ao menos a amostra que tive diante de mim.
• Numa fala que me forçaram a fazer (forasteiro, estava ali quieto no meu cantinho até ser denunciado no final), entre outras coisas discordei de quem achava que estes vinhos que já nascem prontos para beber, ao contrário da antiga tradição de guarda dos grandes rótulos, fosse uma moda passageira. Mais: disse que acho bom poder beber logo os grandes vinhos (acabou a época dos barões que podiam guardar por décadas suas garrafas), especialmente se são vinhos que, ao mesmo tempo em que se pode beber jovens, também podem ser guardados e melhorados com o tempo. Como vem acontecendo com os melhores châteaux.
• De resto, concordei com os danos que a influência de Parker traz para a produção mundial de vinhos, ao levá-los a uma padronização empobrecedora. Processo no qual o maior culpado nem é o próprio Parker, mas a caretice do consumidor médio americano, que adora um pai dizendo que se pode pagar um pouco mais por tal vinho já que ele tem nota maior que outro. Este consumidor prefere que alguém diga que um vinho é meio centésimo (!) de ponto melhor que outro, do que provar os vinhos e eleger seus preferidos. Um horror. Pior: um horror monetarizado, e cuja grana decide os destinos do mercado produtor.

A noitada acabou com um interregno capitaneado pelo convidado José Hugo Celidônio, que liderou uma rodada de dry martinis; e um jantar de inspiração suíça preparado pelo chef do hotel, Alain Jacot (acompanhado por vinhos suíços).



Escrito por Josimar às 13h35
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Para o sul e para o alto - 2

Encerrado o evento Mesa de Cinema em Gramado, que ocorreu no último fim de semana (e é mensal), eu iria aqui relatar como decorreu o debate sobre o filme "Sideways" e o jantar que o chef João Leme (do paulistano Rôti) fez inspirado no filme. Mas ao ler o relato no site do evento, imbuí-me da mais vergonhosa preguiça, alimentada pelo fato de que ele está muito preciso (mesmo com certos excessos na adjetivação). Então o reproduzo:


Cena de "Sideways", debatido em Gramado

"O coquetel de recepção aos convidados na noite de sexta-feira não deixava dúvidas: João Leme estava inspirado. Mini-croissants de espinafre, frango com bacon em molho barbecue e minihamburguers no palito faziam referências diretas aos elementos que a maioria dos expectadores mal percebe na trama.

No sábado, emoções e surpresas mais fortes pautaram o evento que vem seduzindo cada vez mais o público amante de cinema e gastronomia de qualidade. A prorrogada degustação de vinhos, preparou o púbico para acompanhar a viagem de Miles e Jack entre os vinhedos da Califórnia. Personagem contraditório, Miles seduz pela forte interpretação do ator Paul Giamatti, expondo as nuances de um homem em meio a crises profissionais e afetivas. O filme é simpático, leve e despretensioso e, em geral, enleva o público com sua comicidade que encobre o vazio das vidas de seus protagonistas.

O professor Ruy Carlos Ostermann destacou duas possibilidades, entre tantas, de percepção do filme. A primeira pautada pela eficiente trilha sonora, basicamente na linha do jazz, que prenuncia os momentos de tensão seja ao solo de um piano, de bateria, nas cordas ou nos sopros. Ostermann encontrou poesia também nas descrições, nas palavras utilizadas pelos personagens para descrever a qualidade de determinados vinhos como quem descreve suas próprias vidas. Em oposição à benevolência do professor com o filme, o crítico de gastronomia Josimar Melo justificou seu desgosto pela trama, mostrando equívocos e incoerências na frágil construção dos dois protagonistas. O apresentador do evento, Roger Lerina, levantou algumas possibilidades de defesa do personagem, mantendo o clima de polêmica e estimulando a participação do público.

Depois de tanta análise, os paladares estavam mais do que ativados e foram mais uma vez surpreendidos pela criatividade e perspicácia do chef. Verdadeiras citações e releituras de cenas do filme forma apresentadas em forma de pratos. O carpaccio de avestruz e o creme brulée de milho com aroma de laranjas tiveram unanimidade de aceitação e encantamento. Mas o prato principal provocou surpresa geral. Filé de porco ao ponto ideal recomendado pelo chef assustou alguns dos convidados, acostumados a comer a carne suína superpassada. Ao final do encontro, João Leme disse entender a quebra de uma tradição equivocada, mas reiterou que a carne estava no ponto certo, arrancando aplausos de todos."



Escrito por Josimar às 09h25
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Josimar Melo é jornalista,
crítico de gastronomia da
Folha de S.Paulo e agitador
cultural nessa área

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