
Há quem diga que a Gourmet morreu porque tinha adotado um má linha editorial. Não acho. Senão, não teria uma tiragem de quase um milhão de exemplares -- se tanta gente lê, ruim não devia ser. Verdade que a Ruth Reichl, nos seus dez anos de editora, mexeu na revista -- mas, acho eu, pra melhor. Por exemplo, passou a cobrir áreas que ela chamava de política da comida -- que ia desde a preocupação com alimentos orgânicos até a defesa das condições de trabalho dos que cultivam os campos, e a defesa das condições dignas de abate dos animais.
Na minha opinião a revista morreu porque seus atuais donos (a editora Condé Nast) não pensam em revista, não pensam em cultura, e não pensam na história -- o significado de uma publicação em sua relação com seu público, sua cultura, seu tempo. Pensam somente em planilhas. Para eles, uma revista boba de noivas, recém-lançada e sem sucesso, é a mesma coisa que uma revista que cativa um milhão de assinantes. Se não fatura publicidade, fecha. (O raciocínio poderia ser, "se não fatura o suficiente, vamos mudar, vamos mexer, vamos tornar lucrativa, tudo menos fechar" -- mas isso daria muito trabalho, e ia requerer um refinamento intelectual que os atuais investidores/donos destas empresas jamais teriam.)

Uma análise interessante do processo que levou à extinção da Gourmet foi feita pelo dono e editor de uma outra revista americana, Christopher Kimball, da Cook's Illustrated, que analisa com agudeza o mercado editorial americano. E pode fazê-lo de cátedra. Ele fundou a revista em 1980. Em 1985 teve contato com o então dono da Gourmet (dono da editora Condé Nast), que acabara de comprar a The New Yorker (que por sua vez era sua sócia, majoritária, na Cook's). Em 1990, a Gourmet comprou a revista de Kimball. E imediatamente a fechou, ficando com seus assinantes.
Em 1993 ele refundou a revista, que hoje vive sob outras bases, diferentes da Gourmet: a Cook's não vive de anúncios, somente dos leitores (assinaturas). Assim como seu website, que é pago (e segundo ele, muito lucrativo). Depois de ter matado a Cook's, hoje quem morre é a Gourmet, e a Cook's sobrevive.
É uma história e uma análise interessante. Deu no New York Times.











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