Dessas coisas que só acontecem em Minas mesmo. Vim a Belo Horizonte para participar, amanhã, do jantar que o francês Patrick Gauthier (2 estrelas Michelin em seu restaurante La Madeleine, em Sens) realiza no restautante O Dádiva. Pois passando o dia trancado no hotel, escrevendo, quando bateu a fome (e a falta de tempo), já umas três da tarde, não deu vontade de comer um club sandwich no bom hotel onde estou; mas de me perder, mesmo que correndo, nalgum dos pecados das beatas Minas Gerais.
E então, aqui é assim: é só sair na rua. Claro, tem coisa ruim em qualquer lugar do mundo, então sempre é preciso algum feeling. Mas não demorou muito: a menos de 5 minutos de caminhada, achei um boteco, mais feio e desarrumado impossível. E pedi: uma dose de cachaça de Salinas (só tinham uma, e não das melhores); uma cerveja; e um sanduíche de linguiça com queijo Minas.
Foi tudo muito bom. Tanto que, morrendo de inveja de outro cliente, tive que pedir também um sanduíche de graúdo pão de queijo com a mesma linguiça dentro.
A glória. A GLÓRIA.
Mas... Vi ali na minha frente um mineiro, pele escura, semblante tranquilo das Alterosas, traje padrão de zelador ou motorista, meia-idade, fazendo um lanchinho. Aquele mineiro da gema, que tinha tudo para ser meu ídolo em termos de gastronomia popular, estava com olhos fixos na minúscula televisão do boteco, e bebendo... uma lata de energético... e comendo... um saquinho de Ruffles’s.
O horror. O HORROR.
PS 1 - Mas vi muita gente, ali mesmo, comendo pão de queijo com cafezinho de coador em copo de vidro. Como desde sempre. A batalha ainda não está perdida!
PS 2 – A mocinha avisava: “gente, o café não está açucarado”. Cada um coloca o açúcar que quiser, se quiser. Viram que moderno o boteco que eu farejei? Chama-se Cecilia Lanches. Não tem número nem placa. Mas fica na rua São Paulo, já desaguando na avenida Contorno, no bairro de Lourdes. Toalha de plástico, luzes de néon, fumaça da cozinha, um horror. E a glória.
PS 3 – E a hora da “dolorosa”? Uma cachaça, uma cerveja grande, dois sanduíches de calabresa: R$ 8,50. Em São Paulo não pagaria nem a pinga.