O que falta no filme "Nação Fast Food"
Redes vendem um padrão de paladar medíocre
Publicado na Folha Ilustrada de ontem
Ainda bem que há no jornal um crítico para avaliar "Nação Fast Food" como cinema. [Ele avaliou o filme como "Bom"]. Atenho-me a falar, portanto, do "conteúdo", o assunto comida, começando por dizer que o filme permite (como todos) uma leitura anterior ao do tema (hambúrguer). Ou seja, pode estar falando não só da indústria da fast-food, mas do consumo de massa em geral.
As mazelas do hambúrguer de uma grande rede se assemelham às de uma grande indústria de pneus ou tênis: a produção em massa tende a maximizar o lucro às custas da qualidade ou de condições humanas de trabalho. Mas acho que o melhor local para mostrar isso não é uma ficção.
Até me cansa esta propaganda infantil contra o hambúrguer, que mostra cenas feias de bois estripados como se o consumo de carne fosse condenável ou fosse possível manter nossa atávica tradição carnívora sem abater a comida. A humanidade sempre estripou -- antigamente, com os próprios dentes --, seu alimento.
Não está aí o problema do hambúrguer. Existe o problema ético de indústrias sem escrúpulos, claro. Mas há outro lado do problema que a indústria nos impõe. É de estética, é de gosto, é de bom gosto. Essas grandes redes nivelam por baixo o gosto médio americano (que já é baixíssimo). E exportam este padrão. Há tênis feitos por crianças exploradas, mas que têm qualidade. Já as redes de fast-food, com uma propaganda voltada para a vulnerabilidade infantil, impingem um padrão de paladar medíocre e difundem uma ideologia do mau gosto: ganhe um brinquedinho ridículo (um palhaço) e coma (como um palhaço) uma comidinha ridícula. Se é pra falar da nação do fast-food, faltou falar isso.
NAÇÃO FAST FOOD
Direção: Richard Linklater
Produção: EUA, 2006
Com: Greg Kinnear, Wilmer Valderrama, Catalina Sandino Moreno













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