Basílico - Josimar Melo UOL Blog
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Restaurante no teatro -- ou vice-versa

Detesto teatro. Talvez por isso mesmo devo ter sido punido pelos deuses (no mínimo o tal do Dionísio, que era chegado num palco), que me cercaram de amigos queridos enterrados nisso até o pescoço. É quando termino me expondo aos perdigotos que pululam na platéia, expelidos por aquela gente que berra até para sussurrar. Mas sendo amigos, termino indo ver (se possível chego apenas no coquetel pós-estréia, que é mais minha área...).

Movido por tal sina, eis que me vi duas vezes, em menos de dez dias!, sentado comportadamente numa platéia de teatro. Para minha sorte, os amigos em questão fizeram a gentileza de envolver atividades gastronômicas em suas peças, o que deu a elas um interesse particular para a ótica deste desinteressado espectador (e ambas duram menos de uma hora, aleluia!). Como imagino que entre os leitores deste blog, se os há, haverá de tudo -- até amantes do teatro --, revelo onde estive.

Não é teatro, é coisa séria: com Bottino (esq.) bebendo cañas y finos em Barcelona (2002) 

No sábado da semana passada fui a um restaurante -- ver teatro. A peça se chama Risotto, e é encenada pelo carioca Rodolfo Bottino, amigo de velhas paradas. Sendo também cozinheiro, atividade que já exerceu profissionalmente quando teve restaurante, mas principalmente ator (desde novelas da Globo, no passado, até televisão, cinema e teatro, principalmente), Rodolfo se põe a cozinhar durante a peça. Prepara um risoto, com direito a degustação pelo público. Interessante que a apresentação acontece num restaurante, mesmo: o Oggi, do chef Manuel Coelho, que fica na Faria Lima, no complexo onde funciona a loja Suxxar. Na peça, criada em conjunto com Luis Salem e Stela Miranda, Rodolfo faz um monólogo cômico com considerações sobre a vida sempre entremeadas por situações e citações gastronômicas. Na estréia, depois do risotinho, jantamos no próprio Oggi, uma bela perna de javali (o restaurante faz assados em fornos a lenha que vale a pena experimentar). Os vinhos, que podem ser escolhidos na loja Grand Cru que funciona ali, saem a preço de prateleira.

Domingas Person (segunda à esquerda) e elenco na peça escrita por Harold Pinter 

Achei que minha cota para este ano estava encerrada quando apareceu novo convite -- desta vez da Domingas Person, que além de apresentar o programa Metrópole da TV Cultura, também atua em teatro. Desta vez, numa peça (a última, me parece) do prêmio Nobel Harold Pinter, Celebração, que também foi traduzida por ela e por seu marido Ivo Muller. Dois amigos envolvidos, não consegui escapar. E mais uma vez, o cenário é um restaurante, no qual jantam dois grupos que falam pelo cotovelo enquanto veem esvair-se suas vidas já vazias. Este está passando no Teatro Cultura Inglesa, em Pinheiros, com direção de Eric Lenate. Não tem restaurante lá dentro, mas pelo menos na estréia teve um coquetelzinho básico (pena que não pude ficar).

 



Escrito por Josimar às 22h05
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O que falta no filme "Nação Fast Food"

Redes vendem um padrão de paladar medíocre


Publicado na Folha Ilustrada de ontem


Ainda bem que há no jornal um crítico para avaliar "Nação Fast Food" como cinema. [Ele avaliou o filme como "Bom"]. Atenho-me a falar, portanto, do "conteúdo", o assunto comida, começando por dizer que o filme permite (como todos) uma leitura anterior ao do tema (hambúrguer). Ou seja, pode estar falando não só da indústria da fast-food, mas do consumo de massa em geral.


As mazelas do hambúrguer de uma grande rede se assemelham às de uma grande indústria de pneus ou tênis: a produção em massa tende a maximizar o lucro às custas da qualidade ou de condições humanas de trabalho. Mas acho que o melhor local para mostrar isso não é uma ficção.


Até me cansa esta propaganda infantil contra o hambúrguer, que mostra cenas feias de bois estripados como se o consumo de carne fosse condenável ou fosse possível manter nossa atávica tradição carnívora sem abater a comida. A humanidade sempre estripou -- antigamente, com os próprios dentes --, seu alimento.


Não está aí o problema do hambúrguer. Existe o problema ético de indústrias sem escrúpulos, claro. Mas há outro lado do problema que a indústria nos impõe. É de estética, é de gosto, é de bom gosto. Essas grandes redes nivelam por baixo o gosto médio americano (que já é baixíssimo). E exportam este padrão. Há tênis feitos por crianças exploradas, mas que têm qualidade. Já as redes de fast-food, com uma propaganda voltada para a vulnerabilidade infantil, impingem um padrão de paladar medíocre e difundem uma ideologia do mau gosto: ganhe um brinquedinho ridículo (um palhaço) e coma (como um palhaço) uma comidinha ridícula. Se é pra falar da nação do fast-food, faltou falar isso.


NAÇÃO FAST FOOD

Direção: Richard Linklater

Produção: EUA, 2006

Com: Greg Kinnear, Wilmer Valderrama, Catalina Sandino Moreno




Escrito por Josimar às 11h45
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Um livro, um filme

Li "Calor", do Bill Buford. Um jornalista americano de prestígio, da "New Yorker", que resolveu mergulhar de cabeça na cozinha, primeiro entrevistando e depois indo trabalhar como escravo na cozinha de Mario Batali, o carismático e energético chef de Nova York (com este nome todo, ele é americano), do Babbo. Mas isso foi só o começo. No afã de ir fundo, Buford passa temporadas na Itália, sempre trabalhando como escravo, em restaurantes e açougues. Queria saber tudo sobre tortelli, tudo sobre bisteca fiorentina. O relato do sofrimento deste cinquentão suando e cortando os dedos na cozinha é muito bom. Não sei porque uma editora com a qualidade da Companhia das Letras não chama um revisor técnico para ajudar o tradutor e lapidar certos termos que tornariam a leitura melhor; mas são poucas as escorregadas. Leia.

Calor - de Bill Buford. Editora Companhia das Letras


Cena do filme "Ratatouille", dirigido por Brad Bird

E também fui ao cinema ver "Ratatouille", ótimo desenho animado da Disney/Pixar. Como desenho animado, a história é mais ou menos a mesma de sempre, edificante e tudo o mais; mas se passa no mundo da cozinha, muito bem retratado. (A consultoria para os pratos, aliás, foi dada pelo Thomas Keller, dono e chef do French Laundry e Per Se, nos Estados Unidos.) A caracterização dos personagens, caricatural e engraçada, também é muito boa -- do ratinho-chef Remy ao chef de cozinha ganancioso, sem falar, claro, do pérfido crítico de restaurantes... Assista.

Ratatouille - de Brad Bird. Nos cinemas



Escrito por Josimar às 10h07
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Os dez mais caros do mundo?

O site da Forbes magazine americana lista os "Restaurantes Mais Caros do Mundo". Espero que a lista dos milionários que eles sempre fazem, e rendem manchetes mundo afora, seja mais acurada que esta. Pois esta lista de dez não traz os mais caros do mundo, é uma lista bem aleatória. Não são os mais caros nem sequer de cada país citado. Desnecessário dizer que tampouco são os melhores (mas de toda forma não é o que anunciaram). Ainda assim, fica como curiosidade, para quem quer saber quanto custa comer em alguns dos lugares famosos (isso são) mundo afora.



Escrito por Josimar às 19h45
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Para quem está no (ou é do) Rio

É nesta segunda-feira, 28, o lançamento do livro “Conversas na Cozinha”, de Marcia Algranti, editado pelo Senac Nacional. Tem receitas, mas fala também de tendências gastronômicas, guias de restaurantes nacionais e internacionais e outros assuntos correlatos.

Marcia é autora de "Cozinha para homens e mulheres que gostam de seus homens", "O Jogo da Cozinha" (para adolescentes), "A Incrível Aventura de Ernesto o Honesto" (para crianças), "Pequeno Dicionário da Gula" e "Cozinha Judaica- 5000 Anos de História e Gastronomia".

O lançamento começa às 19h na Livraria Argumento (rua Dias Ferreira, 417, Leblon, Rio de Janeiro, tel. (021) 2259-9398).



Escrito por Josimar às 18h15
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Josimar Melo é jornalista,
crítico de gastronomia da
Folha de S.Paulo e agitador
cultural nessa área

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